Acesso Exclusivo
Busca no site

A categoria essencial na Doutrina Social da Igreja, é a de “relação”, não a de “opressão”

Reflexões de Paulo Jacobina, Procurador Regional da República e Mestre em Direito Econômico.

Por Paulo Vasconcelos Jacobina

Há uma diferença entre tradição e tradicionalismo, que muitas vezes é esquecida em nossa vida, e em especial em nossa vida de cristãos. Segundo um aforisma conhecido de Jaroslav Pelikan, “Tradição é a fé viva dos mortos, tradicionalismo é a fé morta dos vivos”. Ele costumava acrescentar que é o “tradicionalismo” quem dá à “tradição” a má reputação que ela tem.

Tradicionalismo ou Tradição?

Como toda frase de efeito, a de Pelikan tem sérios limites. De fato, a Tradição não é simplesmente a fé viva dos mortos, mas a fé viva de Igreja de todos os tempos. É a fé de todos nós, filhos da Igreja, vivos atualmente ou não. Tradição, no seu sentido mais puro significa, simplesmente, como diz Chesterton no seu livro “Ortodoxia”, estender a noção de democracia para dar voto também aos que já morreram; ele dizia:

A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia daqueles que parecem estar por aí meramente de passagem. Todos os democratas protestam contra o fato de o nascimento estabelecer diferenças entre os homens, a tradição opõe-se a que tais diferenças sejam estabelecidas por razão de sua morte. A democracia nos diz que não devemos desprezar a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso cavalariço; a tradição nos pede que não desprezemos a opinião de um cavalheiro, mesmo que ele seja o nosso pai. Não posso, de forma alguma, separar essas duas ideias de democracia e tradição, pois me parece evidente que ambas representam a mesma ideia. Os mortos têm de estar presentes nos nossos conselhos.”

Parece uma boa explicação para aquilo que professamos em nosso credo, todo dia: cremos na comunhão dos santos. Que não se interrompe pelo acidente de tratarem-se de santos que ainda peregrinam sobre a terra ou de santos que já morreram. Se a morte humana pudesse interromper a comunhão dos santos, Nero teria triunfado sobre Jesus ao mandar eliminar Pedro e Paulo.

Não se trata, pois, de congelar ou fazer ressurgir o passado. O tempo passa, e nada pode ser julgado melhor ou pior simplesmente por estar vinculado a esta ou aquela quadra do tempo. O Livro do Eclesiastes já nos advertia: “Não pergunte: ‘por que os tempos do passado eram melhores do que os de agora?’ Esta pergunta não vem da sabedoria.” Não é, portanto, muito sábio querer que o passado volte, nos diz a Escritura. Cada tempo traz suas próprias questões, que devem ser resolvidas à luz da Comunhão dos Santos, e da santa Tradição, cristalizada nas Escrituras e na tradição Apostólica, as duas pernas com que a Igreja caminha.

A perda da própria identidade católica. 

Mas os tempos atuais trazem um desafio especial para aqueles que professam a fé na santa Tradição. A perda da própria identidade católica. Durante muitos anos, e ainda hoje, simplesmente levantar esta questão, mesmo nos meios mais católicos, trazia imediatamente a acusação de reacionarismo. Parecia uma grande corrida para a destruição de tudo o que havia de mais sagrado na própria Igreja. Teólogos lidos, adotados e publicados no Brasil (ainda hoje) reduziam a fé a uma “práxis transformadora, que deve se valer do instrumental marxista”, e chegavam a denunciar como idólatras aqueles que, mesmo confessando Jesus Cristo como Deus e Senhor, deixavam de ir à “luta social” para ajoelhar-se na frente do Santíssimo. Outros, no campo da moral, tentavam justificar tudo a partir da “situação concreta” do sujeito, negando que haja absolutos morais como a vedação à eutanásia, ao aborto ou ao divórcio. Havia teólogos americanos, mesmo dentre os padres e religiosos, que chegaram a defender que o amor homossexual era mais cristão que o heterossexual, porque era desinteressado numa eventual prole.

Houve teólogos que negaram a “historicidade” da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, dizendo que houve ali apenas um “fenômeno” que pode ser explicado como um “dar-se conta”, um “cair em si” dos apóstolos reunidos, que maieuticamente perceberam a presença de Jesus entre eles como corporal e concreta, sem que Jesus de fato estivesse fisicamente ali. Era a corrente da desmitificação bultmanniana da fé. Alguns, nessa linha, afirmaram mesmo que Jesus é apenas um “símbolo”, uma representação que “remete a Deus”, mas sobre quem jamais vai se poder afirmar que é Deus mesmo. Estes são apenas exemplos. Há outros teólogos ainda mais “inovadores”, que chegaram mesmo a proclamar a “morte de Deus” e a salvação revolucionária “na e pela história”, como “se Che Guevara devesse casar-se com Santa Teresinha” para produzir um filho que fosse um “verdadeiro cristão”. Quem já se aventurou a comprar e ler algumas das coisas que estão expostas em muitas editoras católicas estes anos todos sabe que não há exagero aqui.

A perda da identidade presbiteral

Depois de pegar um jovem, colocá-lo num seminário por anos a fio fazendo-o estudar coisas assim, como se pode estranhar que se veja, como já se viu algumas vezes, uma missa de calça jeans surrada e boné vermelho na cabeça, substituindo a Bíblia, na liturgia da palavra, pelo relato de “invasões de latifúndios” e propondo beiju e cachaça no lugar de pão e vinho? Claro que estes são exemplos extremos, embora não tão raros num passado próximo, quando muitas vezes não só tolerados como incentivados, mas há exemplos mais cotidianos: vem um padre na paróquia que leu esses “teólogos populares” e manda que a comunidade reze com ele as orações privativas do sacerdote, dando uma bronca na comunidade por “não perceber que o verdadeiro sacerdote é o povo”. Na outra semana, um outro padre dá uma bronca na mesmíssima comunidade por proferir junto com ele as orações privativas do sacerdote, e ainda um terceiro convida o povo, na semana seguinte, a balançar os bracinhos e sacudir os quadris para saudar Jesus. Não conto as vezes em que fui corrigido por afirmar que estava na Igreja para “assistir” ou “ouvir” missa (como diz o Código Canônico); na missa se “participa”, dizem estes, escandalizados com meu linguajar “ultrapassado”.

Foi assim que passei muitos anos longe da Igreja. Eu realmente acreditava que meu engajamento como promotor de justiça, na defesa de crianças e adolescentes, de pessoas com necessidades especiais, de pobres e de idosos e do meio ambiente era muito mais cristão do que a conduta de quem ia à missa todo domingo mas não estava “socialmente engajado”. Eu me sentia, de certa forma, mais justificado, mais santo do que qualquer sacerdote ordenado, porque estava fazendo, na prática, aquilo que eles pregavam na teoria, em seus documentos eclesiais, manifestações públicas e atuação política. Que necessidade tinha eu de sacramentos, quando meu emprego me pagava para fazer aquilo que a Igreja, naquele momento, indicava como “único caminho de salvação”? Meu cotidiano era estar ao lado dos mais pobres diuturnamente, quando muitos padres diziam, nas poucas homilias que assistia então, que quem rezava o terço na Igreja quando deveria estar engajado na mudança social era um cristão hipócrita. Como se o engajamento social fosse o único “sacramento” de uma igreja em que o centro não era Jesus, era o “pobre”, na categoria sociológica de “economicamente explorado”, não na categoria teológica de confiante apenas em Deus.

Isto não me impediu de perceber, num dado momento, a vacuidade de toda tentativa de transformar a revolução estatal num caminho salvífico como um grande engodo, que permitiu o enriquecimento ilícito dos espertinhos que souberam muito bem construir suas carreiras políticas com a apropriação desse discurso teológico. Hoje vemos bem o que aconteceu em todos os países em que este pensamento teológico conseguiu impor seus militantes como governantes: fim da democracia representativa, instalação de ditaduras não raro violentas, crise econômica, desabastecimento, apostasia em massa com crescimento de seitas evangélicas, mágicas ou gnósticas de todo tipo, igrejas católicas vazias, e os poucos fiéis católicos que tentam viver a própria fé perseguidos e cercados como “conservadores reacionários” muitas vezes dentro dos próprios corredores eclesiais.

Resgatar a doutrina social da Igreja

Precisamos resgatar de verdade a doutrina social da Igreja, a que nós, leigos, poucas vezes fomos expostos senão pelo viés marxista; a doutrina social da Igreja, a verdadeira, é muito diferente de tudo que me ensinaram, como leigo, nos “movimentos e pastorais sociais” católicos com os quais tive contato em minha atuação profissional. A categoria essencial na Doutrina Social da Igreja, é a de “relação”, não a de “opressão”.

Esta mera mudança de enfoque, percebi depois que retornei a uma vida sacramental plena, faz toda a diferença: em vez de ensinar por aí que um cristão crítico é aquele que desconfia que toda relação esconde uma opressão, e deve lutar para que a ascensão do lado oprimido ao poder estatal crie uma sociedade mais justa, com a “liberação” advinda da destruição de uma suposta “dominação patriarcal e neoliberal”, deveriam nos ensinar o que a doutrina social da Igreja realmente ensina: como a Santíssima Trindade é, em sua realidade mais íntima, uma relação perfeita de três distintos que são um, assim do mesmo modo o ser humano precisa das relações para ser mais semelhante a Deus. Curar as relações, reconstruir as famílias, as escolas, as empresas, as paróquias, as pequenas associações locais, dar-lhes o são e pleno respeito da subsidiariedade, e não substituí-las pela tutela de um estado socialista e seus planos de hegemonia política, e suas pretensões de reengenharia social. Eis, me parece, o que a verdadeira doutrina social da Igreja propõe.

Parceiros